Na era do ciberespazo, a censura adaptouse a formas moito máis eficaces e intelixentes. “Antes”, a saber, na era gutemberguiana do papel impreso, a censura nos xornais adoptaba a forma do “recorte”, o que criaba un espazo en branco que delataba o dedo inquisidor e producía un efecto contraproducente para o torquemada detentor da tesoira: a imaxinación do leitor reenchía o rectángulo baleiro coas peores soflamas e denuncias antigobernamentais que superaban sempre, con moito, o verdadeiro contido do artigo orixinal recortado.
O mesmo acontecía cos silencios impostos nas radios e televisións, un tendía a imaxinar palabras e melodías que non deixaban pedra sobre pedra nas ondas hetzianas.
Cal é a novidade da censura do século XXI nos países “centrais”? Agora a censura funciona por sobredose. Cae sobre nós tal morea de “información”, perfeitamente xerarquizada para ocupar os postos relevantes dos “buscadores” da Internet, que resulta moi canso atopar certas referencias críticas, enterradas baixo unha taragigatonelada de lixo comunicativo.
Mais do que imos falar aquí, queridos e queridas leitoras, é xustamente do contrario. No día de hoxe, cumprida xa a primeira década do XXI, o grande éxito musical “Sem eira nem beira”, do grupo portugués “Xutos e pontapés”, non se pode escoitar en ningunha radio lusitana de ámbito nacional. Estamos diante do que o diario lisboeta “Público” denominou “o mais ruidoso silencio musical dos últimos tempos”.
Neste caso non valen nin mesmo os argumentos dos gostos da audiencia, pois “Sem eira nem beira” é o tema máis aplaudido nos concertos do grupo e supera xa o meio millón de descargas en Youtube, nas súas diversas versións, acontecemento sen precedente nas redes lusitanas.
Cal é o motivo, pois, desta conxunción radio-activa?
O medo. O medo á reacción do goberno socialista do Engenheiro José Sócrates, quen se ve retratado na canción.
Aquí vai a letra:
Anda tudo do avesso
Nesta rua que atravesso
Dão milhões a quem os tem
Aos outros um passou - bem
Não consigo perceber
Quem é que nos quer tramar
Enganar
Despedir
E ainda se ficam a rir
Eu quero acreditar
Que esta merda vai mudar
E espero vir a ter
Uma vida bem melhor
Mas se eu nada fizer
Isto nunca vai mudar
Conseguir
Encontrar
Mais força para lutar...
Mais força para lutar...
Mais força para lutar...
Mais força para lutar...
(Refrão)
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a comer
É difícil ser honesto
É difícil de engolir
Quem não tem nada vai preso
Quem tem muito fica a rir
Ainda espero ver alguém
Assumir que já andou
A roubar
A enganar
o povo que acreditou
Conseguir encontrar mais força para lutar
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar...
Mais força para lutar...
(Refrão)
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a comer
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Mas eu sou um homem honesto
Só errei na profissão
(Refrão)
Senhor enginheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a ...
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Dê-me um pouco de atenção...
É interesante comparar este afaire con un caso anterior, a canción “
Talvez Foder”, de Pedro Abrunhosa, todo un éxito comercial en 1995, fortemente contestada polo goberno da dereita de Cavaco Silva, a quen se dirixía críticamente, e que circulou amplísimamento ao longo do dial radiofónico.